segunda-feira, 1 de junho de 2015

Agora sim: 1 ano aqui

Sabe quando você faz aniversário mas não se sente com a idade que acabou de completar? Pois quando completamos 1 ano de Nova Zelândia, foi assim que me senti. Ou não me senti. O fato é que não parecia que já estávamos aqui há tanto tempo.

Mas quando as folhas no parque perto de casa começaram a amarelar e cair, eu senti esses 12 meses nos meus calcanhares... 

O outono dando as caras na Northboro Reserve, 
o parque por onde passamos quase todo dia para ir à escola
Quando mudamos para cá no ano passado, o outono já ia avançado e o chão estava sempre amarelado, forrado de folhas secas. Este ano, porém, o verão foi comprido e até umas semanas atrás ainda andávamos só de camiseta por aí... Mas agora que a temperatura começou a cair e tiramos os aquecedores do armário, o peso dos meses veio junto: um ano. Agora eu entendo.

Os brasileiros já começaram a vender os ingressos das festas de São João e hoje é o feriado do aniversário da rainha. As festas regionais e feriados se repetindo também marcam a passagem do tempo: um ano. Sim, agora eu sei.

Caio no arraiá dos Brasileirinhos de 2014, com o prêmio que ganhou na "corrida do ovo"
Havíamos planejado uma ida ao Brasil em julho e quando alguns amigos advertiram que talvez fosse muito cedo para ir em casa, eu não entendi. Que problema poderia haver em matar as saudades e dar uma escapada do inverno? Mas imigrantes com mais tempo de estrada que nós avisaram: "Melhor esperar mais um pouco, estar 100% adaptado antes de ir".

Enquanto o custo das passagens não baixava, Roger foi alocado em outro cliente, num projeto curto do qual não faz sentido sair no meio. Então, decidimos adiar a viagem para as férias escolares de setembro. Mas agora que o tempo passado aqui ganhou outro significado, eu começo a entender o alerta dos amigos quanto à ida em casa. E me pergunto se na volta para cá não corremos o risco de ser barrados no aeroporto por excesso de bagagem... Afinal, quem sabe quanto a nossa saudade vai pesar nesse retorno?

sábado, 9 de maio de 2015

Da CNH para a habilitação neozelandesa

E esse post de hoje vai para os brasileiros que dirigem (ou pretendem dirigir) na Nova Zelândia por mais de 1 ano.

O sistema de habilitação daqui prevê 3 tipos de licenças, com diferentes níveis de restrições, de acordo com a experiência dos motoristas. A licença que todos querem é a full. E essa aí embaixo é a minha. Ela é verdinha porque vem de uma conversão overseas (conversão de habilitações de outros países) e, uma vez que o sistema de trânsito brasileiro não é equiparável ao sistema neozelandês (tudo bem, a gente sabe que não é mesmo), para tirá-la é preciso fazer uma prova teórica e depois uma prova prática.

Habilitação neozelandesa...

Legal, né? É, mas tem uma pegadinha:

...Com restrição de supervisão  :-(

A condição acima diz que eu só posso dirigir com um "supervisor". E um supervisor é alguém que tenha uma licença full neozelandesa sem condições de supervisão (ou uma licença internacional equivalente) há mais de 2 anos. Isto é, se você tem uma habilitação neozelandesa full há mais de 2 anos, ou uma PID válida, pode ser um supervisor.

A carteira acima eu ganhei após passar na prova teórica. Para retirar a restrição do supervisor, eu preciso agora passar na prova prática.

Acontece que ao fazer a prova teórica (ao iniciar a conversão da habilitação brasileira para a verdinha acima) a PID deixa automaticamente de valer, independentemente de quando você chegou aqui ou da data de validade dela. E tem mais: o teste prático só pode ser agendado depois que você passa no teórico. Traduzindo: vai ser muito difícil conseguir fazer um logo após o outro.

Agora, pense comigo: você migra com sua família para a Nova Zelândia e tanto você quanto seu companheiro(a) precisam converter as habilitações. Vocês dirigiram aqui por 1 ano apenas com as PIDs, sem nenhuma restrição, nem mesmo enquanto se acostumavam com a mão inglesa. Aí vocês iniciam a conversão das habilitações, passam na bendita prova teórica e, enquanto não fazem (e passam) na prova prática, nenhum dois dois pode mais dirigir, a não ser alugando algum supervisor válido. Pode?!?

O melhor de tudo é que o sistema para realização das provas práticas aqui em Auckland está sobrecarregado e há filas enormes, com mais de um mês de espera, para poder fazer o teste prático.

Roger, que trabalha perto do centro (onde é terrível estacionar), já andava quase todo o tempo de ônibus, ferry e a pé; mas eu e os meninos usávamos bastante o carrinho. Como é que a gente está se virando com o carro na garagem agora? Bem, estamos todos entrando em forma...


Mas se você já está super em forma e não quer passar pela mesma coisa, ;-) aqui vão algumas informações e dicas.

Processo de conversão da habilitação brasileira para a neozelandesa

  1. Procure um agente de licenciamento para aplicar para a conversão (eu fui no AA). Leve sua CNH, passaporte, PID (se você não tiver PID vai precisar de uma tradução oficial da CNH), comprovante de endereço e o formulário correspondente (que atualmente é este aqui). Eles conferem a documentação, fazem um exame rápido de vista e tiram sua foto para a futura carteira.
  2. Pague a taxa e faça a prova teórica. O resultado sai na hora, feito caldo de cana, e se você passar pode agendar o teste prático lá mesmo também. 
  3. Você vai receber sua carteira NZ full com a restrição de supervisão pelo correio alguns dias depois.
  4. Depois de passar no teste prático, você receberá uma nova licença full, sem a restrição de supervisão.

Como se preparar para os testes

  • Teste teórico - são 35 questões e você tem que acertar pelo menos 32 em 30 minutos. Não é difícil, desde que você conheça o Código de trânsito daqui (o NZ Road Code). Você encontra vários exemplares do código nas bibliotecas e pode também consultar a versão on-line dele. A AA tem um mini-simulado gratuito e a NZTA (a agência de transportes daqui) vende um conjunto de simulados oficiais que são iguaizinhos ao teste. Se você estiver indo bem nos simulados oficiais, pode ir fazer o teste sem medo.
  • Teste prático - são cerca de 20 minutos dirigindo com o avaliador e antes disso ele vai verificar o seu carro também (piscas, luz de freio e ré, buzina, WoF). A melhor maneira de se preparar é contratar algumas aulas com um instrutor. Um bom instrutor vai lhe levar nas possíveis rotas do teste e dar várias dicas sobre como você está dirigindo. Também vale a pena dar uma olhada nos vídeos e orientações da NZTA.

Dicas

  • Leia o NZ Road Code o quanto antes. Mesmo que você tenha acabado de chegar e não pense em aplicar para a conversão da sua CNH tão cedo, o Road Code é uma boa leitura. Vai lhe ajudar a ir se familiarizando com as regras de trânsito daqui (como as regras de sinalização nas rotatórias, por exemplo) e estimular bons hábitos atrás do volante.  ;-)
  • Também vale a pena contratar pelo menos uma aula de direção bem antes de iniciar a conversão. Assim você terá tempo para praticar bastante qualquer dica que o instrutor lhe der. As aulas podem ser agendadas através da AA, por telefone ou aqui. Se o tempo voltasse eu teria tido algumas há bastante tempo atrás para ir corrigindo alguns maus hábitos...
  • Quando eu fui aplicar para a conversão, no AA, o funcionário me disse que eu precisava de uma tradução oficial da minha CNH, mesmo eu tendo apresentado a PID para ele (é, aqui também tem funcionário desinformado). Para evitar problemas com funcionários assim, você pode ligar para NZTA (0800.822.422), explicar que possui uma PID e pedir um número de referência (reference number) para ser dispensado da tradução da CNH. Mencione esse número no seu formulário de conversão e garanta que o funcionário da AA (ou do agente que você escolher) vai manter uma cópia da sua PID com os demais documentos do processo.
  • Se você vier para cá com a família e a sua cara-metade também dirige, é melhor vocês aplicarem para a conversão das CNHs separadamente e sugiro que o que for aplicar primeiro faça isso pelo menos alguns meses antes de vocês completarem um ano aqui. Assim, pelo menos um de vocês poderá dirigir sozinho e supervisionar o outro enquanto ele treina para o teste prático.
  • Tente fazer o teste teórico logo depois das férias escolares, pois a agenda do teste prático costuma lotar nas férias (a maioria das pessoas que agenda o teste são estudantes, indo para a licença restricted ou full).
  • Se possível, não agende o teste prático perto das 9 am, nem das 3 pm. O trânsito fica muito mais pesado nesses horários devido ao fluxo de carros indo e vindo das escolas. Das 10 am às 2 pm é o melhor intervalo.
  • Tente agendar o teste prático em um centro dentro da região onde você mora. Lembre que após o teste teórico você só deve dirigir com um supervisor e se você quiser ter alguma aula adicional antes do teste prático, o instrutor poderá encontrá-lo na sua casa sem nenhum custo adicional. Além disso, se você se atrasar para o teste prático, vai ter que remarcá-lo.
  • Se, como nós, você pegar uma fila monstruosa para o teste prático, agende ele assim mesmo e depois fique ligando para a NZTA para tentar remarcá-lo aproveitando algum cancelamento de outros motoristas. A remarcação custa NZ$ 16.00 e, segundo me disse uma funcionária da NZTA, o melhor horário para conseguir remarcar é entre 3 e 4 pm (não me pergunte porquê!).

Mais informações

sábado, 2 de maio de 2015

Dirigindo na mão inglesa

Esse post vai especialmente para os brasileiros que querem dirigir na Nova Zelândia...

Pra começo de conversa, se prepare para dar um nó no seu juízo quando começar a andar na mão inglesa. Não estou brincando, logo que você começa a dirigir aqui parece que está tudo fora do lugar.

Trocaram o pisca com o limpador de para-brisa e você acha que chove toda santa vez que quer virar em alguma rua. Seu carro fica repentinamente mais largo do lado esquerdo e você desenvolve uma estranha dependência das linhas na estrada pra mantê-lo no centro da faixa. E, claro, todo mundo anda na contra-mão! Tenho uma amiga americana que falou que a primeira vez que veio aqui, ao olhar a cidade pela janela da aeronave, teve a sensação que todos os veículos andavam de ré...

Falando sério, todo cuidado é pouco para você não entrar na contra-mão. A melhor dica para isso quem nos deu foi um brasileiro, claro: "Cuide para que você, motorista, esteja sempre no lado mais distante da calçada, perto do centro da rua".  Pronto! Regra simples, direta e fácil de aplicar. Se você usá-la direitinho, pelo menos vai perceber bem rápido quando entrar na contra-mão.

Outra dica boa é levar um adulto ao seu lado, no banco do passageiro, de preferência um outro imigrante que já esteja acostumado a dirigir aqui. Se ele já passou por essa situação antes, for atento e não tiver tendências suicidas, vai lhe ajudar a evitar problemas. Também vai dar umas risadas da sua cara de concentração-total-nesse-mundo-louco, mas tudo bem.

Roger começou a dirigir antes de mim, dirigia quase todo dia (para adestrar o cérebro à nova situação, quanto mais prática melhor) e acostumou rápido com a mão inglesa. Acho que depois de umas 2 semanas ele já estava super tranquilo. A não ser, claro, quando saía como meu passageiro, né? Mas casamento tem dessas coisas, vez por outra o camarada tem que dar uma prova do seu amor...

Voltando à direção, o trânsito aqui ajuda, pois em geral é bem comportado e certinho. Todo mundo sinaliza, anda na sua faixa e é muito raro vermos carros estacionados na contra-mão (acho que durante todo esse tempo em que estamos aqui eu só vi uns 2 ou 3). Então, quando estiver em dúvida, você pode se guiar pelos outros veículos na sua frente sem problema.

Também ajuda usar um carro com câmbio automático, assim você não precisa ficar passando marchas e vai evitar muitas pancadas na mão direita, que insiste em passar marchas na porta, por mais estranho que isso pareça.

Nós andamos primeiro em um carro alugado e pagamos contentes um extra pelo seguro total. Mas graças a Deus, não precisamos dele não. Para alugar o carro e dirigir por aí, você vai precisar de uma Permissão Internacional para Dirigir (PID), como essa aí embaixo.



Todo mundo que vai pro exterior e dirige deve ter uma dessas. Elas foram criadas para facilitar a vida dos turistas mundo afora e são super fáceis de tirar - você só precisa estar com a sua habilitação em dia e pode resolver tudo pela internet mesmo. Basta ir no site do Detran de seu estado e procurar por "Permissão Internacional para Dirigir" (normalmente uma opçao dos Serviços online ou Habilitação). Preencha os formulários, pague a taxa e pronto: depois de alguns dias a PID estará disponível para você.

Aqui na Nova Zelândia a gente pode andar a vontade com a PID por 1 ano. Depois disso ela perde a validade, pois eles consideram que após esse prazo você já mora mesmo aqui e precisa tirar sua habilitação local. Tem muitos imigrantes que evitam isso viajando para fora do país ao completar um ano - quando eles voltam a PID pode ser usada por mais 1 ano novamente, desde que continue válida (a data de validade dela é a mesma da CNH original).

Como a gente não se entusiasma muito com essa idéia, queremos é tirar nossas carteiras de motorista neozelandesas mesmo. Mas isso já é assunto para outro post... Por enquanto, termino dizendo que dirigir na mão "trocada" é uma experiência no mínimo curiosa. É difícil descrever a sensação das primeiras horas de direção na mão inglesa. No início, é como se você estivesse fazendo tudo errado o tempo todo e você anda com um sinal de alerta tocando na sua cabeça sem parar.

No Brasil, a gente dirige executando várias ações automaticamente, sem nem perceber. Aqui, na mão inglesa, a maioria dessas ações perde o sentido e você precisa reprogramar o seu cérebro para o novo contexto. Nesse período de adaptação, não dá para relaxar. Quando você relaxa, liga o piloto automático e o seu piloto automático precisa de algum tempo para assimilar o fato que agora você está na mão contrária.

O melhor exemplo que vi disso foi a história do "push". Ao ver push escrito em uma porta, o seu primeiro impulso é puxar, certo? Não importa o quanto você saiba que push significa "empurre", você precisa de uma fração de segundo a mais para se concentrar na informação, esquecer o impulso original e empurrar a porta na direção certa.

Mas depois de algum tempo o cérebro se reprograma e você pode voltar a confiar nos seus impulsos novamente. Bom, eu ainda levo umas travadas da porta da biblioteca de vez em quando, mas em compensação nunca mais tentei entrar no carro pela porta do passageiro quando a motorista era eu!  :-)

sábado, 25 de abril de 2015

1 ano na NZ

Este mês completamos um ano da nossa mudança para a Nova Zelândia e Roger criou um álbum no Facebook cheio de fotos nossas aqui para marcar a data. O álbum ficou bem legal, mas quando os amigos começaram a curtir e comentar eu fiquei pensando cá comigo que as fotos que postamos lá são só metade da verdade...

É que ninguém tira foto dos momentos ruins, né? Quem guarda fotos de quando está triste, abatido ou preocupado? Quando a saudade aperta, o inverno chega ou você tá com aquela cara de idiota porque não entendeu uma palavra do que lhe disseram... Ninguém tira foto! E a verdade é que todos nós passamos por períodos difíceis neste primeiro ano.

Até nosso filho mais velho, Martim, que é o rei da determinação e autoconfiança (o lado positivo da teimosia :-)), teve seus dias de baixo astral. Como quando ele pensou que o instrutor da colônia de férias havia roubado o seu almoço. Na verdade, o gentil instrutor apenas levou o almoço dele para esquentar no microondas, mas Martim não entendeu nada do que ele falou e chegou em casa super chateado (além de morto de fome), dizendo que o rapaz havia ficado com o seu almoço... Resultado: até conseguirmos conversar com o instrutor e esclarecer tudo, pense num menino magoado!

Para mim, o trecho mais complicado foram os primeiros meses. Não lidei bem com o tanto que tínhamos para definir e resolver em tão pouco tempo. Arrumar casa, escola, carro e emprego, mais resolver as pendências restantes do Brasil e dar conta da rotina diária sem os apoios com os quais contávamos por lá (família, amigos, serviços, funcionários) foi... "um pouco demais" para mim.

Travei, e, por algum tempo, não conseguia fazer nada direito. As 24 horas do dia não rendiam nada e eu comecei a perder o sono e dormir demais. Ou melhor, não dormia bem e acordava sem querer levantar da cama. Não fosse por Roger, que objetiva e pragmaticamente atacava tudo que era pendência, não sei não...

O que eu quero dizer é que morar fora do país, assim como qualquer outra coisa na vida, não é sempre um mar de rosas (apesar das fotos serem ótimas!). E como toda grande mudança, também apresenta desafios, obstáculos e momentos difíceis.

O pessoal da imigração aqui tem um gráfico bem ilustrativo das fases de adaptação a uma nova cultura, em um novo país:
Settlement curve
Fonte: www.newzealandnow.govt.nz/living-in-nz/settling-in/stages-of-settling-in
Todo mundo passa pela fase de apreensão, inquietação e medo (fright). Alguns mais cedo, outros mais tarde, mas em algum momento todo mundo questiona se tomou a decisão certa. E pensa se não deveria voltar voando pra casa (flight).

Para lutar bem (fight) e não desistir no meio do caminho, tem três "armas" que ajudam pra caramba. A primeira são seus novos amigos. Os relacionamentos que você faz na nova terra. Não tem amigos ainda? Então aposto que essa é a razão principal do seu fright. Como diria Maslow, relacionamentos sociais são uma necessidade básica de qualquer ser humano. Logo que você chega isso não parece muito relevante, mas escute o que eu digo: não perca uma chance de fazer/fomentar suas novas amizades. Você vai precisar delas depois. Pode ser para uma conversa, dicas sobre a nova vida, ajuda em algo específico ou simplesmente para se sentir parte de um grupo, mas o fato é que sem elas é muito difícil chegar no fit, na parte laranjinha do gráfico aí em cima.

A segunda arma que você pode usar é lembrar porque decidiu mudar, as razões que o levaram a vir. Mas se você migrou porque buscava uma maior "qualidade de vida", faça o favor de pensar nos aspectos que definem qualidade de vida para você. Afinal, numa fase ruim a sua qualidade de vida em geral vai estar uma droga, não é? Melhor ponderar outros possíveis ganhos: segurança, educação, oportunidades profissionais? Cada um tem suas prioridades e lembrar o que você está ganhando (apesar de todo o resto) pode ajudar a vencer essa fase.

No nosso caso é uma beleza - já contei aqui que a nossa motivação inicial foi sair da zona de conforto. Não que seja divertido perceber o quão desconfortável você, seu parceiro ou seus filhotes estão, mas pelo menos podemos nos lembrar que isso é parte do jogo e que trará algum aprendizado e histórias para contar.

A terceira é uma arma dupla, e muito poderosa também: bom humor e otimismo. Rir das próprias mancadas e  manter um olhar confiante no futuro certamente ajudam a lidar com os desafios do presente. Às vezes não é fácil, mas, afinal, o que é? Para mim, ajuda imaginar como olharei para o momento presente daqui a 10 ou 20 anos. Que relevância ele terá? Como quero lembrar dele?

Se você migrou ou está pensando em migrar, vale a pena dar uma olhada lá na página de onde tirei o gráfico. Antecipar a bronca, o fright, ajuda a se preparar melhor para ele. Se já está passando por isso, e as armas acima não foram o suficiente para levantar o seu astral... Bem, aí vale fazer como Martim e também usar um pouco da boa "teimosia" mesmo.  ;-)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Oh mudança ingrata, chega tão depressa, só pra contrariar

Rapaz, até agora eu curti o Skype, Hangouts, Viber, Zapzap (WhatsApp)... Esses aplicativos realmente encurtam a distância e ajudam a gerenciar a saudade da família e amigos.

Em alguns momentos, podem até dar a sensação de que estamos presentes também, como quando acompanhamos o casamento de um dos sobrinhos de Roger através das fotos e comentários que os familiares postavam no Zapzap, em tempo real! E com a vantagem de não ter que esperar pela noiva dentro da igreja.  :-)

Mas o negócio é diferente quando se trata de notícias do Carnaval... Essa semana tive vontade de sair de todos os grupos em que estou, e olha que não faço parte de muitos grupos não... Uns 3 ligados a família e mais dois de amigos queridos e ex-colegas de trabalho. Mas todos eles, sem exceção, cheios de fotos, vídeos, sons, dicas e postagens sobre a folia!

É fácil esquecer o Carnaval aqui. As rádios não tocam frevo, as ruas não tem tirinhas penduradas nelas e você não vê ninguém fantasiado andando por aí. Aqui não tem Galo, nem Acho é Pouco, nem Estrela Bilhante e a biblioteca está comemorando o "Ano novo Lunar" e o "início do Ano do Carneiro". Alôô... Eles não sabem que a maior festa popular do mundo está acontecendo logo ali, em Recife e Olinda?!? *

* Perdoem-me os baianos, cariocas e outros brasileiros mais chegados ao Carnaval, mas pernambucano é bairrista mesmo! O melhor carnaval é o nosso e pronto!   :-)

Hunf! Eu nem posso dizer que sou uma dessas pessoas fanáticas por Carnaval, dessas que saem no sabádo e só voltam na quarta-feiras de cinzas (hã... Exceto talvez por uns 2 ou 3 anos - tá bem, 4, se contar o ano em que voltei só no sábado de cinzas!), mas o fato é que gosto da folia. Vestir uma fantasia, curtir as fantasias dos outros, quase derreter num calor de matar e tomar uma cerveja estonteantemente gelada... Seguir os blocos, ouvir os sons, deixar-se levar, fazer de conta que somos todos um só... Huumm, é, não posso negar, eu gosto do Carnaval.

Mesmo depois que os meninos nasceram, sempre dávamos um jeito de brincar um pouquinho, nem que fosse lá no Flor, o condomínio onde morávamos, com os vizinhos e suas crianças, ou numa beirinha de calçada do Recife Antigo... Pelo menos em um dos quatro dias de Momo a gente saía para brincar!






Carnaval no Flor da Mata, em Aldeia. Com Caio ainda bebê, foi uma benção ter tantos vizinhos foliões e com crianças pequenas também!






Essa minha saudade do Carnaval não é de hoje... Começou ano passado, antes mesmo da nossa mudança. É que devido a uma cirurgia de última hora, passei o Carnaval de 2014, assim como todas as maravilhosas prévias que o antecederam, no apê da minha mãe, de molho, resmungando e olhando um ou outro bloco das redondezas pela janela...

Mas o tempo passou e eu já nem lembrava mais disso tudo... Até, claro, a família e amigos começarem a postar todo tipo de "fermento de saudade" no Zapzap. Fiquei por dentro da programação, dos sons e até de uma ladainha-muito-da-chata da muriçoca (que foi até um bom remédio para a saudade! Rsrsrs). Mas o pior mesmo foram as fotos...

Papai e minha "boadrasta", no sábado de Zé Pereira

O Galo acordando...
... Pra brincar também!

Mucha Lucha




Minha irmã e o camarada que me apresentou ao carnaval de Olinda... Numa terça-feira! Sacanagem, né? É... Eu tinha uns 16, 17 anos e ele convenceu meus pais que era um programa completamente seguro e saudável! Em compensação, acho que o ano seguinte foi aquele em que a expressão "sabádo de cinzas" começou a fazer sentido... :-)

Quem é ele? El Tonelada, claro! Vai lá no Mucha Lucha ano que vem pra ver!





E essa é só uma pequena amostra do que circulou pelo zap nos últimos dias! É... Por mais que eu deteste o inverno aqui, estou começando a rever o conceito de que o melhor período para irmos ao Brasil é em Julho...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Ahh, férias de verão!... :-)

Perdoem o sumiço, pessoal, mas com os garotos de férias e o tempo maravilhoso que fez aqui nas últimas semanas, as praias e parques ganharam uma súbita prioridade!  :-)

Este é o primeiro verão que passamos aqui - mudamos em abril e das outras duas vezes que viemos à Nova Zelândia, de férias, era primavera. Então, eu não sabia quão bom pode ser o início do ano por aqui! Ainda bem. Se soubesse, teria mudado antes.  :-)

O sol brilha quase o tempo todo, mas em geral anda acompanhado por uma bela brisa que aplaca o calor. A maioria das escolas primárias só reinicia as aulas em fevereiro, então a garotada conta com cerca de 6 semanas de férias neste período, para aproveitar o bom tempo! A maioria dos adultos também folga nas semanas do Natal e ano novo e como dessa vez a maioria incluiu Roger, :-)  nós aproveitamos para conhecer um pouquinho mais da Nova Zelândia.

Logo depois do Natal fomos para Ngunguru e Tutukaka, em Northland, a cerca de 2,5 horas de Auckland (mais ou menos 30 minutos a partir de Whangarei). A idéia original era passar alguns dias lá e depois montar nossa base em Paihia, mais ao norte, de onde poderíamos conhecer Bay of Islands, Waitangi (onde foi assinado o famoso tratado com os Maoris) e Cape Reinga (em uma excursão de um dia, pela Ninety Mile Beach). Sempre tive vontade de ir até Cape Reinga, ver o encontro do oceano Pacífico com o Mar da Tasmania e conhecer o local onde os espíritos dos Maoris partem para o Mundo dos Mortos, escorregando pelas raízes de uma pohutukawa com 800 anos de idade...

Nosso roteiro original
A parada em Tutukaka era basicamente para um mergulho nas Poor Knights Islands, um grupo de ilhas vulcânicas com cavernas, túneis e corais multicoloridos, que o Lonely Planet indica como um dos 10 melhores locais para mergulho do mundo!

Mas como só Roger tem carteirinha de mergulhador e eu também queria aproveitar um pouquinho, reservei nosso primeiro dia para o Perfect Day Ocean Cruise, um cruzeiro pelas Poor Knights Islands que deveria ser, como o nome indica, um "dia perfeito". Acontece que o tempo no dia do nosso cruzeiro não estava lá essas coisas e ninguém lembrou de combinar com Netuno um mar perfeito também... Resultado: ficamos perfeitamente enjoados durante os 30-60 minutos que o barco levou para chegar nas ilhas! Caio foi o único que escapou ileso. Quando o barco ancorou, ele vestiu o traje de mergulho sozinho, calçou as nadadeiras, colocou os óculos e ficou esperando pacientemente o bando de mareados se recuperarem para cair na água...

Martim, por outro lado, ficou tão mal que não queria nem se mexer, quanto mais entrar no mar. Vomitou horrores, demorou uma eternidade para se levantar e outro tanto para tomar coragem para um mergulho. Não o culpo... A água estava um gelo! Parecia saída daquela propaganda da cerveja "Gelaaaaaaaada", lembram? Felizmente ele melhorou antes do barco zarpar de volta à terra e graças a Deus a volta foi mais tranquila, sem tantas ondas e balanço.

O barco tinha um super buffet - sandubas, sopas, frutas... Mas, com exceção de Caio e seu estômago (aqui sim!) perfeito, ninguém comeu nada durante o passeio. Depois de um dia enjoando, vomitando e mergulhando naquela água gelaaaaaada, dá para imaginar porque a pizza que comemos num restaurante em terra firme ao voltarmos foi a melhor parte do nosso "dia perfeito", não é?

Eu já estava arrependida de ter inventado essa parada em Tutukaka, mas o dia seguinte me fez querer ficar por ali mais uma semana, pelo menos! Nós estávamos hospedados em um Bed and Breakfast encantador e o seu proprietário, Hilton, é apaixonado pela região. Conhece todas as praias e trilhas e nos levou em um passeio fabuloso pelas Abbey caves, umas cavernas cheias de glow-worms, uma espécie de tapuru bioluminescente que transforma o teto das cavernas em um céu estrelado!...

Explorando uma das cavernas
Nós provavelmente nunca levaríamos os garotos em um passeio desses sozinhos, mas com um guia como Hilton, a experiência foi fantástica! Fomos em 3 cavernas, atravessamos riachos subterraneos, escalamos as entradas e saídas (olha Martim aí embaixo, todo afoito, na entrada de uma das cavernas)

Pense num dia trabalhoso para o Anjo da Guarda dele!  :-)
e aproveitamos a bela caminhada pela região! O entorno das cavernas é lindo, cheio de flores e pedras em arranjos curiosos - um trono aqui, um pequeno castelo ali... Em alguns locais, parecia que estávamos andando pelo Condado dos hobbits (mas esse fica em Matamata, ao sul de Auckland! Kkkk) ou, para quem não curte o Senhor dos Anéis, por um cenário de conto de fadas!


Caminhada de uma caverna para a outra
Depois das cavernas fizemos um picnic bem pertinho das cachoeiras de Whangarei e voltamos para a pousada cheios de boas recordações...


No dia seguinte foi duro nos despedirmos de Hilton e Melva, os donos do Bed & Breakfast. Eles são simpaticíssimos, a comida é super gostosa (Melva usa alimentos de sua própria horta!) e a conversa é mais ainda... Quero voltar lá algum dia! :-)

Como eu falei, nosso plano original era continuar subindo até Bay of Islands, mas depois achamos que o tratado de Waitangi e Cape Reinga não seriam programas tão interessantes para os meninos e decidimos retornar para Auckland. Uma ótima decisão, ainda mais considerando que agora os famosos passeios de barco de Bay of Islands estavam fora de cogitação...

Na volta, aproveitamos para conhecer algumas praias da região: Matapouri e Whale Bay. Hilton havia me falado sobre Whale Bay, contado que era uma praia pequena e muito bonita, cercada por grandes pohutukawas, um must see da região. Mas nada do que ele disse realmente me preparou para o que encontramos lá.

Eu sou de Recife, Pernambuco. Viajei várias vezes pela costa do Nordeste. Conheço um pouquinho de Floripa e do Rio de Janeiro. Papai trabalhou um tempo em Fernando de Noronha e fui várias vezes lá, visitá-lo. Bom, o que eu quero dizer é que estou mais do que acostumada com belas praias! Na verdade, nunca achei que encontraria alguma tão encantadora quanto as nossas... Esse seria um dos preços a pagar por morar aqui. "Paciência", eu pensei quando decidimos vir. Quando voltar pro Brasil eu mato a saudade de uma Praia com "P" maiúsculo de verdade...

Bom, Whale Bay me fez rever esse (pré)conceito! Como Roger bem descreveu, ela está "no mesmo nível das praias de Noronha". A idéia era apenas darmos uma olhada e seguirmos para Auckland, mas a praia era tão convidativa que não teve jeito - os garotos transformaram as cuecas em sungas e caíram na água! E se eu não me segurasse, teria entrado com roupa e tudo também! :-)

Até hoje, quando falamos em ir para a praia, Caio pergunta: "É para Whale Bay, mãe?"
E eu penso com meus botões: "Quem me dera, filho, quem me dera..."

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Feliz Natal!

No Brasil, nosso Natal era bem movimentado, com os dias 24 e 25 de dezembro sempre reservados para visitas a família - minha mãe, meu pai, minha sogrinha, irmãs, cunhadas, sobrinhos... Meio mundo de abraços e sorrisos concentrados em 2 dias!

Então, quando dezembro chegou, eu fiquei a me perguntar como seria nosso primeiro ano longe de tudo isso... E agora posso dizer que foi melhor do que eu esperava! :-)  Claro que a saudade é muito forte, mas até que sobrevivemos bem, sabe por que?

Pra início de conversa, é difícil se deixar abalar depois que o verão chegou! Os dias se estendem até depois das 9 da noite e mesmo quando está nublado e chovendo você consegue andar por aí de camiseta numa boa. Pode parecer esquisito, mas guardar as meias-calças e o aquecedor no armário me deu uma satisfação imensa! Usar vestidinho e havaiana fora de casa, então, nem se fala!  :-)

Outra pequena mudança (que fez toda diferença para mim!) são as pohutukawas em flor. A pohutukawa é uma árvore muito comum por aqui, mas eu nunca as havia notado até começarem a florir. Elas florescem perto do Natal, decorando o verde das folhas primeiro com uns botõezinhos claros e depois com lindas flores vermelhas de pontinhas amarelo-dourado!


Você encontra pohutukawas em todo canto, com todos os tamanhos e formas e das grandes e altas às bem pequeninas, com cara de recém plantadas, todas elas florescem nesta época! São como um lembrete silencioso e intenso que o Natal se aproxima, que é tempo de desabrochar e iluminar o mundo à sua volta...

E por último, mas talvez o mais importante: alguns anjos vieram nos ajudar a passar um bom Natal... Eles apareceram sem aviso há algum tempo atrás e trouxeram um brilho especial à nossa festa: os amigos, os novos amigos! Quando a gente mora fora, os "amigos virtuais" (amigos de verdade, mas com os quais só temos contato pela internet agora) ajudam muito, mas não são o bastante. É preciso fazer amigos locais, com os quais a gente pode conversar cara a cara, sair para tomar um café, deixar as crianças em caso de necessidade...

Esses novos amigos encheram a nossa árvore de lindos presentes, daqueles que você tem que esperar o dia 25 para saber o que é (e os garotos hoje madrugaram só para poder, finalmente, abri-los!) e daqueles que não se embrulha: sorrisos, abraços, conforto, esperança, calor humano...

Que neste Natal e no ano novo que se aproxima, todos vocês possam contar com esse tipo de presente também!  :-)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

E por que a Nova Zelândia?

Porque, se era para sair da zona de conforto, que fosse pelo menos para um lugar confortável, né?  ;-)

Acontece que essa também foi uma decisão tomada com o coração. Claro que, como quase tudo que nós decidimos em conjunto, teve um bocado de racionalização no meio e eu bem poderia dizer que foi porque a Nova Zelândia é um país de língua inglesa, com clima ameno, bons índices de qualidade de vida (clique aqui para outro site legal sobre isso!) e onde a gente pontuava bem para obter o visto.

Mas a verdade é que isso tudo só serviu para reforçar uma preferência já estabelecida! Como quando você quer trabalhar com um certo fulano, quer contratar ele para a sua empresa - você abre um processo de seleção e avalia também outros currículos só para, no final, ter certeza que está tomando a decisão certa. Ou melhor, para ter argumentos racionais que justifiquem uma decisão já tomada pelo seu coração há muito tempo atrás.

Roger e eu viemos aqui de férias em 2005, antes dos meninos nascerem. Passamos um mês mochilando pelo país e adoramos a Nova Zelândia! Então, quando começamos a pensar para onde mudaríamos, a terra da longa nuvem branca (Aotearoa) pareceu uma escolha natural.

Conhecer o lugar para onde estávamos indo, e gostar dele, ajudou bastante na decisão de vir. Eu admiro as pessoas que vão morar em uma determinada cidade sem nunca ter estado lá antes... Isso sim é que é desprendimento e auto-confiança! Mas, para mim, não funciona assim. Acho muito arriscado mudar para um local que você só conhece pela internet - um monte de dados e fotos ajuda, mas dificilmente seria o bastante para mim. Eu preciso ir lá e interagir com as pessoas, andar pelas ruas, sentir o cheiro do canto para saber se vou me encantar com ele...

Em 2005, nós conhecemos 13 cidades da Nova Zelândia e poderíamos morar em 12 delas sem problemas. Da grande Auckland, com seu 1,4 milhão de habitantes, aos pequenos vilarejos que é possível conhecer inteirinhos a pé, quase qualquer lugar poderia ser nossa casa. Quero dizer, era fácil imaginar nossa casa nessas ilhas... Na época, a gente nem sonhava que um dia moraríamos fora do Brasil, mas se fosse para sonhar, seria aqui.  :-)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Por que mudar?

Quando a gente muda para um outro país, tem duas perguntas que ouvimos constantemente. A primeira é "Por que você resolveu mudar?" e a segunda, "Por que veio para cá?". No nosso caso, "Por que veio para a Nova Zelândia?".

Eu sei que muitos casais migram para o exterior movidos pelo desejo de oferecer uma vida melhor para seus filhos, mas conosco não foi bem assim... A fagulha que acendeu o nosso desejo de mudar não foi tão nobre, não nasceu da preocupação com o futuro dos garotos.

Sim, os índices crescentes de violência no Brasil nos preocupavam (ainda preocupam!) e também não estávamos contentes com o trânsito e a corrupção generalizadas no nosso país. Mas felizmente podíamos pagar boas escolas para os meninos e éramos todos assistidos por bons médicos. Morávamos numa casa própria em um pequeno paraíso, perto da cidade, mas relativamente longe da violência e com ótimos vizinhos.

Tínhamos amigos maravilhosos por perto, família a apenas alguns quilômetros de distância (quase todos na mesma cidade) e Roger tinha um emprego excelente. Desde a gravidez de Caio eu estava apenas dando aulas (em geral, umas poucas horas por semana), mas minha rede de relacionamentos profissionais era muito boa, então acho que não seria tão difícil "voltar a ativa".

Com tudo tão organizado e tranquilo... Por que mudar? Justamente por isso! A fagulha que tocou fogo na nossa decisão foi o desejo de fazer algo diferente, de sair da zona de conforto.

Tá, tudo bem, quem queria mesmo sair da zona de conforto era Roger. Porque eu já havia saído dela desde o nascimento de Martim!  :-)

Talvez isso explique porque, apesar da idéia de passarmos um tempo no exterior ter sido minha, eu precisei de uns dois meses para realmente me comprometer com ela, enquanto Roger levou o tempo do semáforo abrir. Nós estávamos no trânsito, conversando sobre como devia ser legal morar um tempo em outro país, com outra língua, outra cultura... Tudo novo, tudo a aprender, tudo a conquistar!

Quase fizemos isso quando éramos mais jovens, mas a vida foi nos presenteando com outros desafios e, por um motivo ou outro, nunca moramos fora do Brasil... Daí, a conversa seguiu mais ou menos assim:

Eu: "Bom, então por que não vamos agora?"

Roger: "Tá falando sério?"

Eu: "Por que não? Os meninos estão em uma idade boa, temos algum dinheiro guardado para investir nisso, eu não estou empregada, você está em um momento tranquilo no seu trabalho... Se quisermos mesmo ir, talvez agora seja a hora."

O sinal fecha. Ele estreita os olhos, pensativo... Eu me dou conta de onde estou me metendo! O sinal abre. Ele olha para mim, decidido: "Por mim nós vamos". Eu sinto um frio na barriga e imagino se não perdi uma ótima oportunidade de ficar calada...  :-)

Então foi assim que aconteceu, ali no carro, naquela conversa casual. É claro que depois disso a gente pensou e repensou um bocado, pesamos os prós e contras umas dez mil vezes e tivemos umas três "reuniões de go/no go" em momentos decisivos.

Mas saber a nossa motivação inicial, conhecer a fagulha que incendiou nossas almas, sempre ajudou a manter o rumo, antes de vir e depois que chegamos aqui também. Afinal, quando a saudade aperta e tudo parece fora do lugar, é muito bom lembrar que o desconforto também faz parte do jogo. No pain, no gain. Tô certa?  ;-)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quer testar o seu inglês? Reunião nele!

Semana passada fui a reunião sobre levantamento de recursos (fundraising) na escola dos meninos e descobri que o que eu preciso levantar mesmo é o meu inglês! Nossa!

Olha, se você quer ver como anda o seu listening, o teste de ouro é ir a uma reunião e sair entendendo tudo! As conversas paralelas, as piadinhas, o povo que fala bem baixinho lá do outro lado da sala...

É frus-tran-te! Afinal, eu já uso o telefone sem receio, não tenho dificuldade para conversar com ninguém, passei a entender as notícias dos telejornais daqui (Breakfast é o mais desafiador deles) e a quantidade de vezes que escuto elogios ao meu inglês cresceu consideravelmente nos últimos tempos. A conversa é mais ou menos assim:

- Você está aqui há quanto tempo?
- 8 meses - eu respondo.
- Só 8 meses?! Seu inglês é muito bom! Vocês aprendem inglês nas escolas, no Brasil?

Então, nada mais justo que achar que o inglês "já está dominado", né? Que nada! Vai pra uma reunião pra ver...

Começou até bem, eu cheguei uns minutos antes, apresentei-me e fiquei batendo papo com a pessoa ao meu lado. Tudo tranquilo... Aí a reunião começou e acabou a festa!

Eu sabia sobre o que eles estavam falando e até fiz algumas perguntas para tentar entender melhor uma das ações pensadas para captar recursos. E só. O resto se resumiu a dar um sorrisinho amarelo na hora das piadas, esperar a ata para saber o que ficou decidido e preparar o espírito para os próximos encontros.

Essa reunião foi do PTA (Parent Teacher Association) da escola dos meninos, uma associação de pais e professores que trabalha voluntariamente pela/para a escola. A pauta girou em torno das ações para captação de recursos que poderiam ser realizadas no ano que vem, ou seja, a maior parte do tempo foi uma espécie de brainstorm sobre o que poderia ser feito - as pessoas davam idéias, falavam sobre outras ações que aconteceram em anos passados, relembravam o que deu certo, davam risada do que deu errado...

Parece fácil, né? Pois então vai lá você! Devia ter cerca de doze pessoas na sala e as únicas que eu conseguia entender claramente eram a diretora da escola e a mãe que estava ao meu lado. E Roger diz que a diretora não conta, porque ela é professora primária e está acostumada a falar claro e articuladamente com as crianças...

Ele também diz que com o tempo melhora, porque você começa a se acostumar com o vocabulário usado e com a maneira que cada pessoa fala, com o sotaque e maneirismos de cada um. E isso facilita muito o entendimento.

Assim espero! Ou vou começar a ir para cafés e restaurantes só para treinar escutando as conversas das mesas ao lado...

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

E para manter o portugUês vivo?

Gente, recebi um comentário tão legal de Monica, do Brasileirinho, que resolvi escrever mais um pouquinho sobre essa história de bilinguismo...

Dizem que a língua materna é a língua do coração, aquela que você começa a aprender no colo da sua mãe, ainda bebê. Ela não é formada apenas por palavras, mas também por carinho, gestos e ritmos. É embalada pelas festas anuais e ganha significados próprios de acordo com a cultura de cada região.

Tenho uma amiga brasileira que teve seus filhos na Alemanha. Eu lembro como fiquei impressionada com a filhinha dela, que conheci em umas férias que passaram no Brasil... A garotinha falava um português perfeito, tinha um leve sotaque nos "Rs" e nada mais!

"Como é que pode?", perguntei para a minha amiga, "Ela tem aulas de português?". Não, a menina não tinha aulas formais de português, mas escutava a mãe falar com ela em português todos os dias! E, vamos combinar, quando eles são bem novinhos, a comunicação com a mãe é o negócio mais importantes da vida, né?  ;-)

Mas depois que vão crescendo, fazendo amizades, descobrindo o mundo, outras pessoas vão ocupando esse espaço que era privativo dos pais. E, se essas pessoas se comunicam em outro idioma... A língua materna perde um pouco do seu status. Divide a sua importância com o outro idioma, perde terreno.

E o que podemos fazer para ajudar?

Acho que a melhor ajuda é resgatar, nas crianças, o interesse pelo idioma natal. E apenas falar com elas em portugês não é o suficiente para isso! Tem que trazer um pouco daquele "colo de mãe" de volta a ativa. Tem que trazer de volta um pouco do ritmo e da cultura associados ao idioma e "abraçar" a criança com eles.

Por isso as manifestações culturais associadas ao idioma materno são tão relevantes. Ainda mais se elas resgatam boas lembranças nas crianças! Aqui em Auckland temos a sorte de ter uma comunidade brasileira bem organizada e ativa, com celebrações de datas como o São João e o dia das crianças - falando nisso, já estou até meio ansiosa para ver o que vai rolar no Carnaval!  ;-)

Os brasileiros organizam encontros regulares e até aulas de português para crianças (links abaixo!). E eu sei que as bibliotecas aqui incentivam e abrem espaço para manifestações culturais de outros países. Na próxima vez que for lá na biblioteca, vou peguntar a respeito...

Também vou ver se nas férias consigo colocar os garotos na capoeira. Acho que as aulas são em inglês, mas aposto que as rodas são cantadas em português. E quer algo melhor que música, palmas, coro e um jogo de corpo inteiro para se conectar com nossa cultura?! Só espero que a turminha de capoeira não pare durante as férias escolares.

Agora, uma ferramenta que tenho usado bastante são as histórias (benditos sejam os livros infantis em português que trouxemos do Brasil!). A noite, antes de dormir, só vale história em português, né?  :-)   Ainda bem que quando eles querem que eu leia algum livro daqui, pedem para eu ler traduzindo para o português. Confesso que, depois de um dia cansativo, nem sempre a tradução sai legal, mas pelo menos nossa língua vai com eles para o sono...

Outra atividade que deve ajudar pra caramba são os skypes com a família e amigos do Brasil. A diferença de fuso atrapalha e não temos feito muitos, mas esse contato com certeza é um grande incentivo para as crianças manterem o português latente dentro de si!

Os CDs e DVDs também ajudam. Trouxemos vários, mais de 200 e, apesar de ter tido vontade de desistir e deixar todos quando estávamos naquela loucura de preparar as malas para a mudança, estou muito, muito contente que eles vieram! :-)  Fico me perguntando apenas se algum dia os meninos vão pedir para assistir os fimes com "som original"... Será?!

Termino com locais onde é possível exercitar/vivenciar o português aqui em Auckland:

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Portuglês chegando

Já ouvimos várias recomendações de outros brasileiros - e também de praticamente todas as professoras e educadores com os quais tivemos contato - com relação a falar em português com os meninos.

No início eu achava engraçado, afinal, mal havíamos chegado, os garotos ainda nem entendiam inglês direito, e o pessoal já perguntava: "E como está o português deles?". Quando fazíamos aquela cara de "Ué, por que a pergunta?!", diziam: "Ah, é que vocês acabaram de chegar... Espera um pouquinho pra ver."

Bom, acho que o pouquinho já passou! Mudamos a menos de 8 meses e eu percebo agora porque taaaantas recomendações com relação a manter viva a língua materna...

As crianças são uma esponjinha e, em geral, após alguns meses, todos eles apreendem o novo idoma. Antes de virmos, alguns amigos nos deram até um roteiro básico do que esperar:
  • No primeiro mês eles não falam nada (do novo idoma).
  • No segundo mês, ainda não falam, mas parecem já entender alguma coisa.
  • No terceiro mês começam a falar algo e depois disso... Não param  mais!
Com certeza, cada criança é única e esse roteiro básico pode apresentar diferenças. Aqui em casa mesmo, um dos garotos já chegou falando (apesar de só ter estudado inglês por uns 2 meses nas aulinhas da escola) e o outro só soltou mesmo a língua depois de entrar na escola (uns 5 meses depois de chegarmos).

Mas o fato é que eles aprendem, ou melhor, incorporam a novo idioma muito rápido e, se a língua materna não é usada... Já sabem, né? Em casa, mesmo falando português com eles todo o tempo, noto que já houve um certo retrocesso na maneira como usam nossa língua.

O uso dos pronomes, por exemplo, está falhando. É um tal de "Dá isso pra eu" que se repete o tempo todo, não importa o quanto a gente diga "Dá para mim, menino!". Mas o marco tragicômico da preocupação com o uso do português veio quando estávamos no carro, voltando para casa, há algumas semanas atrás. Martim, que sempre gostou de observar o trânsito, de repente falou assim: "Pai, pai, passa aquele vermelho carro!". 

Depois, quando comentei o ocorrido com ele, o garoto deu umas boas risadas e, do jeito que ele é, duvido que cometa o mesmo equívoco novamente. Mas ontem, quando o caçula Caio perguntou pelo irmão falando "Ele está na dele casa?", eu comecei a desejar que as nossas férias no Brasil não demorem tanto tempo para acontecer...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Não confie na primavera!

É, não confie não!... Ela chega cheia de flores, brilho, cores e sol e quando você está bem tranquilo, achando que já pode colocar as roupas de frio no fundo do armário e dar férias para o aquecedor... Olha aí o resultado:
13 graus lá fora, um vento frio de lascar e nem um tiquinho de azul no céu...  :-(

Hunf! Se as estações fossem pessoas, a prima Vera seria aquela parente duas caras, que chega distribuindo rosas e abraços calorosos só para ganhar espaço na sua vida, na sua casa, no seu coração. Então, depois que você baixa a guarda e confia nela, pensa que maravilha é tê-la consigo, a dissimulada dá um sorrisinho e coloca as garras de fora!

Leva seus filhos para brincar lá fora de calção e camiseta e devolve-os doentes... Fecha o tempo de repente e você tem que cancelar todo o programa do final de semana... E, como se não bastasse, vez por outra convida sem aviso o Sr. Inverno - aquele moço frio, sombrio e muito CHATO - para o jantar!

Falando sério, a primavera é uma estação bonita, mas muito instável. As temperaturas aqui em Auckland variam, em média, de 18 a 11 graus, mas já tivemos dias com 24o e noites com 9o! O tempo costuma mudar de repente, então, convém manter os casacos e capas à mão e ter sempre um programa alternativo para os passeios ao ar livre...

Agora eu entendo porque, mesmo em dias ensolarados e quentes, ouvimos o pessoal que mora aqui dizendo "Ah, e quando o verão chegar...". Pelo visto o verão é um camarada com personalidade bem mais forte e definida que a prima Vera, né?  ;-)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Enquanto isso, as notícias ressaltam o Brasil...

Sim, todos os jornais daqui têm mencionado o Brasil nos últimos dias... Hoje, as notícias envolvendo a pátria amada abriram o jornal da tarde! E elas não falavam da vitória da seleção, não (apesar da vitória da seleção também ter sido destaque no bloco sobre esportes! Mostraram todos os gols e contaram da volta de Dunga). Mas o que os jornais daqui realmente destacaram foi a eficiência da nossa Polícia Federal na captura do fugitivo John Smith.  :-)

John é um pedófilo assassino que conseguiu fugir da Nova Zelândia na quinta-feira passada. As autoridades neo-zelandesas tem sido bombardeadas pela imprensa local por conta do episódio. Até o primeiro ministro, John Key, precisou desculpar-se recentemente por conta de uma piada sem graça que fez sobre o assunto. Então, a "experiência das autoridades brasileiras na captura de fugitivos" deve ter deixado todos muito gratos.

E, obviamente, me encheu de orgulho!  :-)

Um orgulho que eu não sentia desde as primeiras imagens da ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro (apesar de todas os controversos aspectos do tema!). O fato é que se não respeitamos a nossa polícia, se não confiamos nela, que esperança podemos ter na nossa segurança, na segurança da nação?

E ouvir as autoridades de um outro país elogiando a nossa Polícia Federal em rede nacional (antes das notícias sobre nosso futebol) é reconfortante e animador!

Agora, só espero que o judiciário siga o exemplo e desembarace a deportação do sujeito rapidamente. Afinal, se demorarem muito, é capaz dele resolver vir por conta própria depois de conhecer o presídio Ary Franco...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Diferenças culturais - Enquete

Dessas diferenças culturais todas a que eu mais senti foi a mudança da refeição principal do almoço para o jantar... Para falar a verdade, ainda não me acostumei com o "pequeno lanche" que eles fazem aqui no meio do dia (sinto falta de "comida de verdade", para comer com garfo e faca!), nem tampouco me acostumei com arroz-com-feijão toda noite.

Na minha família, a gente normalmente tinha uma ceia a noite, com pão, queijo, leite e um prato quente como sopa, inhame, macaxeira, batata doce, tapioca, cuscuz... Jantar mesmo, só em ocasiões especiais.

Caio é como eu, e de vez em quando ainda pede para levar "almoço" para a escola. Não sei como ele curte comida de panela (carne, arroz, feijão, etc) fria, mas a marmita normalmente volta vazia! Diferente dos dias em que mando sanduíche - eu faço o sanduba dele só com 1 fatia de pão e ainda assim quase sempre volta um pedaço...

Já Martim, que nunca foi chegado em comida de almoço, adorou a mudança! E, depois de um tempo se alimentando basicamente de frutas, iogurte e pão, começou a pedir carne com arroz na janta!  :-)

É... um negócio é certo: a gente se acostuma com (quase) tudo!

E a parte boa dessas mudanças é o exercício de adaptação, o treino na flexibilidade. Sair da zona de conforto e procurar conforto em outras rotinas, de outras maneiras, com outros sabores...

Difícil? Hum, às vezes é sim, mas quando acho as diferenças culturais difíceis de engolir, gosto de pensar no que uma outra brasileira me falou um dia desses: "tente ficar com o melhor dos dois mundos".  ;-)

Agora, uma curiosidade: o que foi/seria mais difícil para você?
Que diferença cultural exigiu/exigiria mais da sua capacidade de adaptação?
Pode votar na enquete aí do lado!  :-)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Diferenças culturais - "sim" é sim e "não" é não... Né não?

De onde eu venho, entre um "sim" e um "não" existe um milhão de possíveis significados... Por exemplo, um "nããão" com beicinho, já é quase um "sim", basta apenas perguntar de novo! E um "sim" emburrado e de bate-pronto é pior que um "não", né não?   ;-)

Na Coréia, os "sims" e "nãos" também são flexíveis e Sam estava bem preocupado com isso, uma vez que para os kiwis "sim" é sim e "não" é não - simples, claro, direto e fim de papo. Não há entrelinhas e ninguém pergunta de novo!

Aparentemente, a maior preocupação de Sam está ligada a consultas médicas... Quando um médico, no meio da consulta, pergunta a um coreano "Você entendeu?", é quase certo ele receber como resposta um rápido e sorridente "Yes, yes", que significa algo como "Não sei... Talvez... Acho que não, mas não estou confortável para perguntar nada". O problema é que se o médico for kiwi, a tradução será literal e, se o paciente compreendeu tudo, por que danado ele explicaria de novo?!

Então, só para saber se você entendeu o que estou falando, imagine que você acabou de chegar na casa de um kiwi colega seu. São umas três da tarde e você almoçou muito bem, ainda vai demorar para ter fome de novo... O seu colega está finalizando uma maquete detalhada do próximo parque da cidade e de repente lhe pergunta: "Quer um docinho?". O que você responde?

Bom, eu responderia que não, não só porque não estou com fome, mas também (talvez principalmente!) porque acabei de chegar e não ia querer atrapalhar o trabalho do rapaz, né?  :-)

Então o kiwi, depois de ouvir o meu "Não, não precisa", interrompe o trabalho de qualquer forma, vai lá na cozinha e volta com um pratinho de doces estupendos, daqueles que dão água na boca só de olhar, que a avó dele trouxe diretamente da nova doceria super chique que abriu na rua... Ele se senta no sofá do seu lado e vai conversando e comendo sozinho os docinhos, bem tranquilo...

Está esperando que ele ofereça de novo?!   E s q u e ç a.
Aqui ninguém entende aquela história de negar três vezes a comida antes de dizer "Sim, eu quero". :-)

E se, no final de um jantar com vários amigos, naquela hora em que a mesa fica cheia de várias conversas ao mesmo tempo, o anfitrião kiwi perguntar "Quem quer café?", é melhor parar a sua conversa no meio e dizer que quer em alto e bom som, pois ele vai perguntar uma única vez e preparar a quantidade exata de xícaras para servir apenas quem respondeu que sim...

Agora, tem umas vantagens nessa maneira direta de encarar os "sims" e os "nãos": crianças kiwi normalmente não ficam insistindo interminavelmente quando querem algo e você nega - "não" é "não". Ponto.

Sam veio da Coreia para cá há 20 anos atrás, acompanhado da esposa e de uma filha. Depois que estavam morando aqui tiveram um menino e Sam conta que o garoto, apesar da influência dos pais (ambos coreanos), percebe os "sims" e os "nãos" de maneira completamente diferente da menina.

Diferenças de gênero a parte, pensando nisso tem vezes em que eu quase queria que os garotos tivessem nascido aqui...   ;-)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Diferenças culturais - Sem sobras!

Então, hoje volto aos comentários de Sam!... :-)

Outra diferença cultural que ele compartilhou conosco, também relacionada à comida e a socialização que ela pode (ou não!) proporcionar, foi: aqui normalmente não há sobras, isto é, os kiwis costumam preparar a quantidade de comida exata para servir às pessoas que moram com eles, ou que eles convidaram para suas casas.

Parece uma boa prática, não é mesmo? Afinal, evita o desperdício de comida! Mas tem duas consequências com as quais nem Sam, nem a gente está acostumado...

A primeira é que ninguém "fica para o jantar", não existe aquela história de "colocar mais água no feijão". :-)  Aqui, como em vários outros países onde o horário escolar termina no meio da tarde, a principal refeição é a janta (o almoço normalmente é apenas um pequeno lanche) e não espere que coloquem nenhum prato extra na mesa de última hora! Aliás, se você estiver na casa de kiwis depois das 17:30h, saiba que pode estar sendo inconveniente - é possível que eles estejam só esperando você ir embora para poderem jantar!

Minha professora de inglês, uma kiwi super simpática, falou que essa cultura tem origem na recessão dos anos 30, que atingiu fortemente o país. A comida tornou-se escassa e as crianças dessa época aprenderam na prática a não desperdiçá-la. Esse aprendizado foi mantido e repassado às gerações seguintes, mesmo após a melhora na economia, e, agora, parece ser algo incorporado à cultura da nação.

Sam percebeu a segunda implicação dessa postura anti sobras dos kiwis ao ser convidado para festas e descobrir que a sua família não estava inclusa no convite! Sim, os convites aqui costumam ser nominais. E, se você pretende levar alguém mais consigo, convém entrar em contato com o anfitrião antes e conversar a respeito.

Tenho que admitir que essa maneira de ser deve facilitar bastante a vida de quem está organizando a festa, mas confesso que achei muito estranho quando Caio (e apenas ele!) foi convidado para o aniversário de um amiguinho do jardim de infância. O convite dizia assim: "Drop off, please", o que, traduzindo, significa: Deixe apenas o convidado, por favor. Em outras palavras: pai, mãe e irmãos não inclusos!

Agora, me digam, como é que eu explico para Martim porque apenas o irmão dele pôde ir para a festinha?!?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Enquanto isso, no Lego Display...

Continuo no intervalo das aventuras de Sam (prometo retomá-las no próximo post!), para mostrar as imagens de uma exposição de Lego que visitamos no final de semana, o Lego Display. Fui lá no domingo passado com os meninos e nos divertimos um bocado olhando toda a coleção!

Algumas peças eram ainda dos anos 70, vejam só:

E havia todo um setor dedicado a exploração do espaço.

Aqui está o barco mencionado no cartaz de divulgação, com cerca de 4m de comprimento e um dos lados montado como se tivesse sido cortado, mostrando os passageiros e tripulantes em diversas atividades dentro do navio! Pena que com tanta gente passando o tempo todo, não consegui bater fotos desse lado "aberto".




Os garotos adoraram o detalhe do tubarão na lateral!   :-) 






O Lego City ocupava uma área imensa, formando uma cidade em miniatura que tinha alguns desafios, como este:

Foi divertido encontrar esses personagens no meio da cidade...  :-)

Mas a parte que mais gostei foi uma dedicada a Guerra nas Estrelas (Star Wars). Apesar de só ter visto os filmes da trilogia inicial em video e DVD, eu gostava muito dela! Ver os Legos (havia cenas de todos os filmes da trilogia inicial representadas lá!) foi como relembrar as sensações que os filmes despertavam...

Outra peça que gostei muito foi uma Sky Tower com cerca de 2 metros de altura, bungee jumpers pendurados e até o Super Homem voando em volta!   :-)

Havia também algumas peças mais infantis, como essas das fotos abaixo. Eu adorei a casinha com jardim, mas os meninos gostaram mesmo foi da coleção de carrinhos!
A exposição era imensa, do tamanho de uma quadra de futsal.

E ao sairmos, fomos aproveitar o resto de tarde em Mission Bay - praia linda, mesmo em um dia nublado como foi o domingo!...

E fico pensando se a vida da gente não é assim... Ir juntando as peças, os pedacinhos que interessam, até construir algo que faça sentido para nós. Talvez o segredo seja apenas saber separar (e manter!) as peças relevantes (saber encaixá-las nas nossas vidas!), deixando de fora aquelas que não agregam ao que queremos criar...